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  • Marisa Arraes

acúmulo



Existe uma casa fazendo 50 anos em 2022. Não sei se ela foi construída há 50 anos, mas uma casa só passa a viver quando é ocupada — vazia ela é especulação imobiliária — e eles chegaram em 72. Rosalind Krauss desenhou um plano, quatro pontos opostos que se comunicam, para dividir a nossa relação com o espaço entre não/paisagem e não/arquitetura. Ao alterarmos a paisagem, caminhamos em direção à arquitetura e, portanto, numa escala de manipulação do espaço, nossas casas são definidas por nossos usos desse espaço, nossas manipulações nos fluxos dos elementos, sejam eles pessoas, objetos, massas de ar ou feixes de luz.

Uma casa é o acúmulo desses fluxos. Imagina pinceladas de tinta sobre uma tela que se avolumam e se somam em camadas. Desse mesmo jeito nossos corpos se justapõem ao longo do tempo e criam o volume que preenche o ambiente. Vida que vai transbordando pelas portas e janelas e que nós levamos pregada na barra da calça pra onde quer que andemos.

Casas com meio século de amontoamento acabam ficando perigosas porque quem está em cada ponta da linha do tempo não se conhece, mesmo que exista algo que deveria em tese os unir, talvez um sentimento familiar ou alguns princípios. Essa linha, que se transforma e passamos a chamar de tempo, recai sobre os últimos moradores da casa não como pertencimento, mas como autoridade.

Dessa forma, a linha do tempo se estabelece como resultados do acúmulo, não apenas dos movimentos dos corpos e ondas como já foi dito, mas também das mudanças. Mutações. Uma causa que aciona um efeito que por sua vez vira causa de um outro efeito assume uma configuração bastante dialética em que somos o conteúdo a sofrer as variações. Uma outra metáfora muito clara é a do cinema — talvez a máquina que tenha melhor entendido esse acúmulo — já que é a sequência de pequenos momentos, pequenos a ponta de serem imperceptíveis por definição se reproduzidos isoladamente, que se somam para fazer uma imagem dizer outra coisa. Um mosaico feito de tempo. Um filme é uma casa.


(Trans)formar-se é, portanto, imperativo. Mais que isso, é inevitável. Exige-se um esforço tremendo continuar a mesma pessoa. Mas para onde seguir depois que o processo de ignição se iniciou? Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar, traz duas mães e duas histórias. Em uma história, tramas de novela nos acalmam com sua familiaridade e vamos nos envolvendo com as duas mulheres que entrelaçam suas vidas. Janis, interpretada por Penélope Cruz, é uma fotógrafa bem sucedida e conhece Ana, Milena Smit, uma jovem que, descobre-se ao longo da trama, ter sido abusada. Em paralelo, como o título sugere, a história de um vilarejo espanhol que convive com um luto compartilhado em uma guerra.


Ao mesmo tempo que o abuso sofrido por Ana não pode ser diminuído, ele abre um caminho de interpretação de que a revelação é apenas mais um ponto de virada narrativa para a personagem. Afinal, é muito comum que a dor de mulheres seja usada unicamente como ferramenta motora de histórias, banalizando e, de certa forma, naturalizando o sofrimento feminino. Mas essa primeira leitura pode esconder a ligação entre a história das protagonistas e a segunda história que comentamos.


Durante a Guerra Civil Espanhola, num pequeno vilarejo, soldados franquistas invadem a casa da família de Janis e levam seu bisavô. Ele e vários outros são assassinados e enterrados numa vala comum pelo fascismo em marcha na Espanha. Toda a cidade fica marcada pelo acontecido e um trauma coletivo se instala no imaginário daquele lugar. Em especial nas mulheres que viram seus pais, filhos e maridos sendo utilizados pelo maquinário da guerra. Um trauma pessoal na maneira que são sentimentos sem resolução e são compartilhados entre pessoas e gerações, e também um trauma que se estende à política ao perguntar “que tipo de país se pode construir depois dessa cicatriz?”.

Acumulamos traumas. O abuso sofrido por Ana reverbera a violência patriarcal de corpos sobre outros corpos. Dominação e poder sem qualquer esperança de reparação; e seria, inclusive, mais doloroso esperar que acontecesse. O cuidado se mostra, no filme, a única saída porque é o oposto do poder. Dividir com outra pessoa cria uma ligação tão forte quanto é forte a violência. Contar histórias e passar adiante o que se tem.

Mas até o cuidado acontece em terrenos de disputas de poder. A relação de Janis com Ana é bastante assimétrica considerando a diferença de idade entre as duas, os lugares profissionais que ocupam, além da relação entre Ana e a própria mãe. O filme caminha questionando essas contradições — políticas, narrativas, pessoais — na direção de tentar seguir em frente apesar e por causa delas. Por mais que esqueçamos no calor das disputas contra a fome e a favor do pagamento do aluguel, a política é um terreno filosófico. Antes de tomarmos uma decisão política ou definirmos uma posição sobre qualquer assunto, temos uma visão de mundo. Nossas experiências e afetos são as pedras fundamentais dessa visão. São as coisas do passado que vamos acumulando e, quem sabe, vão nos fazer imaginar outros futuros.


Janis cuida da casa de sua família com um carinho que reflete o respeito que tem por sua história. Sabe que tudo que aquele espaço amontoou são os rastros de tudo que foi convivido ali. Ela depende — ela é — da união daquelas mulheres na espera de ritualizar a despedida de seus familiares. Depende porque é como educou os seus afetos a se basearem nos familiares na outra ponta da linha do tempo. Apegar-se aos pedacinhos que se acumulam, mesmo e talvez principalmente, quando eles são imateriais, orais, sentimentais. Afinal, é essa transcendência que dá vida ao concreto e ao cimento. É essa transcendência que espantará o uso da violência contra os vulneráveis. Sem cuidado só é possível a exploração dos corpos. Sem imaginação só é possível o fascismo.

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