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  • Marisa Arraes

gênero e gênero | gender and genre


"Pequena Garota", de Sébastien Lifshitz, 2020


O documentário não é um gênero cinematográfico visto que existem documentários de vários formatos e podemos encontrar os dramáticos, os históricos, de comédia, musicais, hibridismos com a ficção e até alguns que se assemelham ao formato de reportagem. Mas não podemos negar que o termo traz uma conotação que coloca o espectador à espera de um tipo de filme específico. A expectativa, normalmente, é a de que o filme tratará de fatos (da verdade, talvez?), com alguma separação entre as personagens e a máquina cinematográfica.

Logo nos primeiros minutos, Pequena Garota apresenta a mãe de Sasha sua (a pequena garota do título) explicando ao diretor do colégio que sua filha, apesar do aparato biológico “masculino”, é uma menina. A mãe conta que desde que aprendeu a falar, Sasha, uma garota de 7 anos, dizia que seria uma mulher quando crescesse, que gostaria de carregar uma criança em seu ventre um dia. O diretor a aconselha a ir procurar acompanhamento profissional em Paris, já que a pequena cidade não possui psicólogos que possam ajudar a família a entender como lidar com a disforia de gênero da filha. Logo depois, vemos a mãe dar seu depoimento sobre como luta para garantir os direitos da filha. O filme, então, passa a acompanhar a família nessa jornada para que Sasha possa ter uma infância plena protegida do preconceito e que tenha seus direitos garantidos. O depoimento da mãe no início é substancial para a forma como o diretor carrega o filme. Já a partir do enquadramento, sentimos que assistimos um desabafo, uma conversa franca entre duas pessoas. A conversa com o diretor do colégio nos deixa com a sensação de que, na cena seguinte, a mãe também fala com alguém (a psicóloga parisiense talvez?). A facilidade com que a mãe — e toda a família — lida com a câmera dá a sensação de atuação. Já os planos próximos, quase sempre close-ups, e a “missão” de mudar oficialmente na escola o gênero de Sasha para que ela possa viver plenamente e ser vista como a garota que é entre os coleguinhas e professores, dá a todo o filme a sensação de que acompanhamos uma ficção. Uma narrativa é simples, mas progressiva, clara e direta. Certamente, os documentários mais tradicionais também se sustentam sobre narrativas para que acompanhemos o encadeamento de ideias, mas em Pequena Garota “parece” um filme de ficção.


O argumento pode parecer tirar a força do filme, dando a ele uma sensação de falseamento das relações e dos acontecimentos, mas o que acontece é justamente o contrário. Em vez de se separar de suas personagens atrás de um aparato técnico, Lifshitz se aproxima de todos com seus close-ups que ocupam quase todo o filme. Tampouco, o diretor se faz presente na história como observador ativo — método comum nos documentários que buscam questionar a aparência de verdade ou isenção que o “gênero” cinematográfico suscita em níveis mais superficiais. Recusando ambas as abordagens, Lifshitz dá a seus personagens as imagens que precisam para levar ao colégio, à cidade, à França, quiçá ao mundo, a mensagem que precisa ser ouvida: Sasha é uma garota que merece todos os direitos de uma criança, seja ela menina ou menino.


Afinal, a condição social que Sasha habita é o limbo. Não consegue viver plenamente sua vida de garota que é, mas também não recebe o mesmo tratamento como o menino que a veem. Esse lugar difuso é dilacerante, mas Lifshitz se abstém de conciliar as visões entre os lados ou de colocar a luta em uma perspectiva política (por exemplo, o movimento LGBT francês, dados históricos, ou qualquer coisa que o valha). O filme escolhe um lado, o de Sasha. Sem questionar qualquer condição, o filme dá a Sasha o único tratamento humano possível, enxergar a existência da garota por quem ela é. Acompanhamos a abordagem cinematográfica do acolhimento.


Aqui, a forma do filme também se mostra como limbo entre a ficção e o documentário. Não exatamente ao misturar cenas de um formato com o outro, mas ao perceber que definições são limitadoras. Assim como cada ser humano tem seu direito de ser, não cabe ao cinema demarcar-se por gêneros que se mostraram ultrapassados no mundo. Gêneros que existiam para definir, circunscrever e formatar visões sobre o mundo, sobre nossas relações e sobre nossos próprios corpos. Lifshitz apenas escuta e reverbera as vozes que decidiu iluminar.

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